Muita gente gosta de sentir
frio.
Outras gostam do calor.
E umas gostam apenas de observar da janela, com um bom aquecedor
ligado, os efeitos gelados que deixam o ar do lado de fora com um efeito mais
turvo e cinza.
Desde que o inverno chegou eu sabia que não iria ser fácil
manter a calma, mas me sentia aliviada já que o efeito que o frio causava em
mim era quase anestésico. Junto com o frio outras coisas chegaram causando não
só um desconforto entre as pessoas que corriam em busca de uma fonte de calor,
mas uma agonia e um ar de preocupação com coisas que ainda nem tinha
acontecido.
Especialmente nesta época eu me mudara com meu marido para um
lugar um tanto mais reservado e distante, na esperança de fugir dos olhares
curiosos. Querendo ou não a nossa presença aguçava muito os sentimentos ruins
de alguns conhecidos, que por um motivo não compreensivo começou a afetar de
forma radical nosso cotidiano. De lá para cá nossa relação se mostrava um pouco
conturbada e eu lia nos olhos dele uma estranha mistura de ternura, cuidado,
desconfiança e preocupação sendo acumulados todos os dias sobre situações que, fugiam
de meu domínio, mas que me faziam sentir culpada.
Ao chegarmos à nova casa fiz questão de arrumar a decoração e deixar tudo com uma aparência acolhedora e bem confortável, o bastante para ser chamado de lar e alegrar meu amado Luís. Fiz questão de me preocupar até com as cores que iriam se casar em cada cômodo e com as sensações que iriam provocar. Nenhum rastro de poeira poderia ser deixado, eu nunca tinha me preocupado tanto com essas coisas, eu precisava deixar tudo perfeito para que ele se sentisse bem onde estava.
Os dias se passavam, a temperatura nos termômetros daquela pequena cidade só caia, chegando a marcar -3 graus na manhã que se sucedera a nossa chegada.
Como de costume nos deitávamos cedo para nos amarmos até os últimos segundos da manhã seguinte, em que ele saia para trabalhar, nessa hora, ainda despida, me despedia de seu calor na porta de casa e subia até a varanda coberta do segundo andar para acompanhar sua lenta partida até a estrada que caminhava rumo ao seu destino. Durante esse tempo meus olhos se fixavam em sua silhueta coberta por mais de três blusas e lhe desejava boas coisas em silêncio esperando que retornasse o mais rápido possível, pois a saudade já batia desde que tocara minha pele a ultima vez. Quando dava por mim já estava roxa e lembrava que precisava entrar antes de congelar. Se não fosse por isso poderia permanecer ali até vê-lo novamente.
Seria muito bom continuar contando como ficamos felizes e como tudo deu certo depois dessa mudança, afinal nada nos impedia agora e o lugar tinha um clima que nos agradava muito. Quem dera fosse assim. Até hoje me pergunto como pode acontecer. Nossa rotina dos sonhos não foram de durar mais de alguns dias, eu não saia de casa, pois o clima estava afetando muito meu estado de saúde e as ultimas coordenadas eram de repouso e nenhuma porta aberta nas próximas 6 semanas. Luís precisava continuar trabalhando e tudo isso não impedia sua ida em direção a grande fábrica diariamente das 5h até às 19h.
Ao chegarmos à nova casa fiz questão de arrumar a decoração e deixar tudo com uma aparência acolhedora e bem confortável, o bastante para ser chamado de lar e alegrar meu amado Luís. Fiz questão de me preocupar até com as cores que iriam se casar em cada cômodo e com as sensações que iriam provocar. Nenhum rastro de poeira poderia ser deixado, eu nunca tinha me preocupado tanto com essas coisas, eu precisava deixar tudo perfeito para que ele se sentisse bem onde estava.
Os dias se passavam, a temperatura nos termômetros daquela pequena cidade só caia, chegando a marcar -3 graus na manhã que se sucedera a nossa chegada.
Como de costume nos deitávamos cedo para nos amarmos até os últimos segundos da manhã seguinte, em que ele saia para trabalhar, nessa hora, ainda despida, me despedia de seu calor na porta de casa e subia até a varanda coberta do segundo andar para acompanhar sua lenta partida até a estrada que caminhava rumo ao seu destino. Durante esse tempo meus olhos se fixavam em sua silhueta coberta por mais de três blusas e lhe desejava boas coisas em silêncio esperando que retornasse o mais rápido possível, pois a saudade já batia desde que tocara minha pele a ultima vez. Quando dava por mim já estava roxa e lembrava que precisava entrar antes de congelar. Se não fosse por isso poderia permanecer ali até vê-lo novamente.
Seria muito bom continuar contando como ficamos felizes e como tudo deu certo depois dessa mudança, afinal nada nos impedia agora e o lugar tinha um clima que nos agradava muito. Quem dera fosse assim. Até hoje me pergunto como pode acontecer. Nossa rotina dos sonhos não foram de durar mais de alguns dias, eu não saia de casa, pois o clima estava afetando muito meu estado de saúde e as ultimas coordenadas eram de repouso e nenhuma porta aberta nas próximas 6 semanas. Luís precisava continuar trabalhando e tudo isso não impedia sua ida em direção a grande fábrica diariamente das 5h até às 19h.
A cada retorno do meu Luís eu sentia algo
estranho, e o medo tomava conta de minha vida constantemente, não me deixando
pensar em muitas coisas se não no que estava se passando. O que eu não
percebera nessa época era que Luís estava cada vez mais distante e tentava me
mostrar isso sempre que olhava fundo nos meus olhos. Aqueles olhos. Aqueles
olhos não mentiam. Aqueles olhos chafurdados em um grande oceano turquesa, e
aquele estranho desenho em formato de coração feito precisamente a lápis em
suas íris revelando sua essência. Luís parecia ser feito do que havia
de mais fino e puro que existia, até seu cheiro era inconfundível e fazia com
que qualquer um que tivesse próximo ter de fazer um esforço incalculável para
se afastar. Meu Luís. Não da para esquecer, da forma com que sorria pra mim, da
forma com que se preocupava, da forma com que falava daquilo que acreditava, da
forma com que me fazia chantagens bobas para ter o que queria e me deixava
brava, da forma com a qual me fazia rir, da forma que se dirigia a mim e da
forma como foi embora.
Era uma segunda
feira, o clima não estava diferente dos outros dias de acordo com os
noticiários, mas eu podia jurar que sentia a oscilação do frio de tempo em
tempo, caindo e subindo de forma totalmente desordenada. Abri os olhos mais cedo do que o
comum essa manhã e logo percebi que estava sozinha na cama. Levantei
calmamente para ver o que ele tinha ido fazer a essa hora. O relógio apontava
exatas 4h da manhã. Ao chegar à sala encontrei uma garrafa térmica que exalava
cheiro de chá de maçã com canela, o meu favorito. Não entendi o que significava,
até mesmo porque Luís não gostava de chá e cheguei à conclusão que deveria ser
pra mim. Mas onde ele esta? Ao me virar me deparei com sua estrutura virada
para mim e olhos levemente inchados como se estivessem passado
os últimos anos de sua vida chorando. Eu não entendia mais nada, mas
senti a culpa caindo sobre mim de repente e sabia que era tudo por causa de
mim. Corri em quatro passos até ele procurando agarra-lo em um abraço apertado.
Minhas lágrimas caiam continuamente e eu já não sabia o que estava fazendo, nem
onde estava, só sabia que o meu amor estava sofrendo e que eu desejava mais do
que viver concertar isso tudo. Ele estava bem ali, apenas me olhando, sem mudar
de expressão e sem fazer qualquer movimento. Então eu respirei fundo, olhei nos
olhos dele, que estavam incrivelmente cinza, e perguntei o que estava
acontecendo, o que significava isso tudo. Ele movimentou um dos braços, me
desprendeu de sua cintura e levou os lábios até meus ouvidos sussurrando
um longo, doloroso e cortante "Adeus". Nesse mesmo segundo eu
perdi a força nas pernas e cai no chão. Senti o suor descer da nunca e congelar
nas costas, um véu branco cobriu meus olhos e eu não conseguia enxergar mais
nada. Tentei desesperadamente me levantar ou alcança-lo com os braços, mas nada
se movia. Então eu ouvi a porta bater e tudo tinha virado nada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário