Tédio.
sexta-feira, 18 de março de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Volta
Volta
E se desfaz deste abandono.
Volta e traz o meu sono
Ou me acorda pra falar
De amor.
Volta
Com a tua frágil entrega,
Volta e não mais me nega.
Vê se volta pra voltar
Toda a cor.
Volta,
Volta e não mais me solta
Deixa de medo ou revolta
Que eu sou a tua paz.
Volta,
Volta que eu aceito, moça!
Volta que eu te darei força
Para você não ir nunca mais.
E se desfaz deste abandono.
Volta e traz o meu sono
Ou me acorda pra falar
De amor.
Volta
Com a tua frágil entrega,
Volta e não mais me nega.
Vê se volta pra voltar
Toda a cor.
Volta,
Volta e não mais me solta
Deixa de medo ou revolta
Que eu sou a tua paz.
Volta,
Volta que eu aceito, moça!
Volta que eu te darei força
Para você não ir nunca mais.
A. N.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Insekt
É. E como você faz quando descobre que matou a vida inteira coisas que eram como ti?
Insetos?
Insetos não são como todos. Vivem, nascem, e morrem. Com poucas vírgulas entre isso.
Talvez eu me compare a um inseto porque você não me deu valor. Porque eles não me deram valor. Porque eles acham que minha perda não seria problema nenhum. Mas eu sempre estive ali pra te ajudar. Eu sempre estive ali dando apoio, me preocupando com os outros, e ficando triste por isso.
O que quer dizer?
Se uma raça de inseto é extinta, um desequilíbrio enorme na natureza iria acontecer. Isso iria afetar os seres humanos com tanto poder, que poderia causar a extinção da raça humana. Não sei, talvez nem isso... Mas algum problema grande causaria.
Quando eu me for, não sei também se vai causar algo tão gigantesco e catastrófico... Mas posso lhe dizer que algo irá acontecer. Algo bem ruim. A você e a todos que me superestimaram.
Mais uma vez abaixo minha cabeça
Fecho meus olhos
Lembra-se quando ela te dizia?
“Você tem problemas demais,
não consigo viver contigo”
Ela é idiota demais
Ela não te conhece
Ela te ignorou como um inseto a vida inteira
E você continua a voar em volta dela
Por todas as noites
Para poder ter certeza de que ela está bem
Está ouvindo o barulho do mar?
O soar do oxigênio vibrando seu tímpano?
Os pingos da garoa tocando a areia suavemente?
E agora...
Cada célula em singular
Comunicando-se uma com a outra
Pra fazer esse mundo perfeito?
Ouço tristes monges cantando
À trinta milhas de distância
Mas eu também choro
Porque eles cantam em homenagem a
um simples inseto
Um inseto que sempre foi pisado
Morto, e maltratado por todos
Mas que sempre continuou
atrás de seus objetivos da vida
Se preocupando com os outros
E eu choro com esses cânticos
Esses cânticos sem esperança
Por esses cânticos, meu irmão
São sobre insetos
E esses cânticos são sobre insetos como nós
Insetos?
Insetos não são como todos. Vivem, nascem, e morrem. Com poucas vírgulas entre isso.
Talvez eu me compare a um inseto porque você não me deu valor. Porque eles não me deram valor. Porque eles acham que minha perda não seria problema nenhum. Mas eu sempre estive ali pra te ajudar. Eu sempre estive ali dando apoio, me preocupando com os outros, e ficando triste por isso.
O que quer dizer?
Se uma raça de inseto é extinta, um desequilíbrio enorme na natureza iria acontecer. Isso iria afetar os seres humanos com tanto poder, que poderia causar a extinção da raça humana. Não sei, talvez nem isso... Mas algum problema grande causaria.
Quando eu me for, não sei também se vai causar algo tão gigantesco e catastrófico... Mas posso lhe dizer que algo irá acontecer. Algo bem ruim. A você e a todos que me superestimaram.
Mais uma vez abaixo minha cabeça
Fecho meus olhos
Lembra-se quando ela te dizia?
“Você tem problemas demais,
não consigo viver contigo”
Ela é idiota demais
Ela não te conhece
Ela te ignorou como um inseto a vida inteira
E você continua a voar em volta dela
Por todas as noites
Para poder ter certeza de que ela está bem
Está ouvindo o barulho do mar?
O soar do oxigênio vibrando seu tímpano?
Os pingos da garoa tocando a areia suavemente?
E agora...
Cada célula em singular
Comunicando-se uma com a outra
Pra fazer esse mundo perfeito?
Ouço tristes monges cantando
À trinta milhas de distância
Mas eu também choro
Porque eles cantam em homenagem a
um simples inseto
Um inseto que sempre foi pisado
Morto, e maltratado por todos
Mas que sempre continuou
atrás de seus objetivos da vida
Se preocupando com os outros
E eu choro com esses cânticos
Esses cânticos sem esperança
Por esses cânticos, meu irmão
São sobre insetos
E esses cânticos são sobre insetos como nós
Por Thiago Galucci
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A Rua
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos
seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar,
que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos
vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades,
nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os
desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o
amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o
único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se
transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo
o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as
coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das
gerações cada vez maior, o amor da rua.
A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis...
A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: "Rua, do latim
ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia".
E Domingos Vieira, citando as
pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que
correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas
e ruas pruvicas". A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só
são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os
folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias,
Ordenações: "Estradas e rua3
manuseei
um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações.
Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades,
a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos
Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a
agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o
auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para
outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis
da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão
avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e
legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem
voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa.
O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a
transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo
estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os
prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando
substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos
dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio
clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo
o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até
impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor
humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita
do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e
canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de
suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A
rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais
igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua
criou todas as
in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenasblagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a4
majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que
batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os
sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são
da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a
eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme
com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é
sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta
e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida
renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões —
tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear
com o céu e com os anjos...
A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo
universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em
cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas,
tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes
irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e
ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma
criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja
ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e
nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir,
aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido
todos os males da cidade, poeira d’ouro que se faz lama e torna a ser
poeira — a rua criou o garoto!
Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender
a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor
do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de
curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos
mais interessante dos esportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?
flâneur e praticar o5
Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a
pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann
proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus
preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem
entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que
significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e
comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir
por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar
o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do
Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das
lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da
Saúde, depois de ter ouvido
do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos
muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua
grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar
absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir,
levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que
interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.
É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com
inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado
dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenorflâneur
que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul
Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à
porta do café, como Poe no
de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos
transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de Sherlock Holmes,
sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo
numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem,
que está a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de um
ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis,Homem da Multidões, dedica-se ao exercício6
sujeito fatal? Coitado! O
igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura,
porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence
da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.
O
"convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos
boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco,
cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história
dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o
espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O
balão que sobe ao meio-dia no Castelo, sobe para seu prazer; as bandas
de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma
serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para
diverti-lo. E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o
flâneur é o bonhomme possuidor de uma almaflâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eternoflâneur
cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o
reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível doflâneur
exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia,
a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e
da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...
Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é
para mim um ser vivo e imóvel.
Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São
assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos do
homem.
Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes
colmeias sociais, de interesses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe.
Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se um trecho de chácara,
aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,
deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso7
para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma
individualidade. Os homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança,
e assim como dizem de um rapagão:
— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!
Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador
Dantas, não se conteve:
— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa
a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas casas no
antigo jardim do Convento, e eu tomava
vinténs!
chopps no Guarda Velha a trêsEu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os
dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de
morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era a recordação, a saudade do
passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo
nos arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem
pensar meia dúzia de criaturas. Um dia cercam à beira um lote de terreno. Surgem em
seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um combustor
tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro
habitantes proclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes
entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação
nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiais contam que os
gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o
calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na
memória da produção, bem nítida, bem pessoal, uma individualidade topográfica a
mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são
pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz
o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou
8
sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo
de um certo tempo.
Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas
sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames,
ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de
uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas,
spleenéticas,snobs,
pinga de sangue...
Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando,
mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais
das montras
vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmente oposicionista,
criou o boato, o "diz-se..." aterrador e o "fecha-fecha" prudente.
Começou por chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para
todos os desvios muita gente boa. No tempo em que os seus melhores
prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Rua do
Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número
prodigioso de poetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos.
Um dia resolveu chamar-se do Ouvidor sem que o senado da câmara
fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta e aplaude,
porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que
ouve; e parece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um
dos aspectos atuais dessa irresponsável artéria da futilidade.
A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias
lôbregas, a miséria, a desgraça das casas velhas e a cair, os corredores
bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi a primeira rua do Rio. Dela
partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, os
gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a
ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem1 à mais leve sombra de perigo. Esse beco inferno de pose, de1
9
Vitrine.imundície, nela desabotoou a flor da influência jesuítica. Índios batidos,
negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, o primeiro balbucio
da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendo
atirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do
Paço, dela decorreram, como de um corpo que sangra, os becos humildes
e os coalhos de sangue, que são as praças, ribeirinhas do mar. Mas,
soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, ela
continuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e
franca e verdadeira na sua dor que os patriotas lisonjeiros e os governos,
ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirar das esquinas aquela
muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!
Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos
pontos que ninguém dantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que,
pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha — a da
Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-se do
Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da
Silva, que sei eu? Até mesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do
Marisco, mas, como certos indivíduos que organizam o nome conforme a
posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Há ruas,
guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas
conservadoras — a das Laranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais
com um arrepio, sentindo o perigo da morte — o Largo do Moura por
exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério
lá se erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo
macabro, com a alma de Tropmann e de Jack, depois de matar,
avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, para chamá-los, para
gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morrem
assassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje,
aberta, alargada com prédios novos e a trepidação contínua do comércio,
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há de vos dar uma impressão de vago horror. À noite são mais densas as
sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que terá essa
rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali
o Aljube, ali padeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal,
porque também ali a forca espalhou a morte!
Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes
de dar um passo sem que todas as vizinhas não saibam. As ruas de
Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro salta no Curvelo, vai
a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que deseja
ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em
geral, procura-se o mistério da montanha para esconder um passeio mais
ou menos amoroso. As ruas de Santa Teresa, é descobrir o par e é deitar a
rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Uma das ruas,
mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo
Rua do Amor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será
exatamente um lugar escolhido pelo Amor, deus decadente? Talvez não.
Há também na freguesia do Engenho Velho uma rua intitulada Feliz
Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da
poesia anônima:
Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!
Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos
emprestar a juro, para esconder quem pede e paga o explorador com ar
humilde. Não vos lembrais da Rua do Sacramento, da rua dos penhores?
Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte à igreja, casas
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velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades
de ferro, uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as
jóias, que pobres entes angustiados iam levar os derradeiros valores com
a alma estrangulada de soluços; era ali que refluíam todas as paixões e
todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro...
Há ruas oradoras, ruas de
foi sempre, o Largo de S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que
parecem sorrir com honestidade — a Rua de Haddock Lobo; ruas em que
não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos vêem —a
Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de
prazer suspeito próximo do centro urbano e como que dele muito
afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar.
Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada
rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada
bairro?
A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há
trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida,
corrida — são as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem
crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nosso
encalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras
descem — o Largo de Paço. Foi esse largo o primeiro esplendor da
cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos baldaquins d’ouro e
púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por
ali, ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio
agitava as suas primeiras elegâncias e as suas ambições mais fortes. O
largo, apesar das reformas, parece guardar a tradição de dormir cedo. À
noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morre no
seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios
revérberos parece dormitarem, e as sombras que por ali deslizam são
meeting — o Largo do Capim que assim12
trapos da existência almejando o fim próximo, ladrões sem pousada,
imigrantes esfaimados... Deixai esse largo, ide às ruelas da Misericórdia,
trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há
homens em esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não
nos admiremos. Somos reflexos. O Beco da Música ou o Beco da Fidalga
reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença, das ruas de
Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de
Heródoto, das ruas do antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da
proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes.
Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de
ver chineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool,
feiticeiras ululando canções sinistras, toda a estranha vida dos portos de
mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dos oceanos, a miséria
das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias...
Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e
religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livrespensadoras
e até ruas sem religião.
humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O mesmo se
pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há
criatura mais sem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e
austero. Lá, Pedro I, trepado num belo cavalo e com um belo gesto,
mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar um grito que
nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que
o velho ex-Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre
a depravação e a roleta. Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra
e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A Rua Benjamin Constant está neste
caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa. Solene,
grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar
compenetrado de certos senhores de todos nós conhecidos:
Trafalgar Square, dizia o mestre13
— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações,
nos bentinhos e só não sou positivista porque é tarde para mudar de
crença. Mas respeito muito e admiro Teixeira Mendes...
Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações
parciais da pele, dores fulgurantes, a sensação de um contacto que não
existe, a certeza de que chamam por nós. As ruas têm os rolos, as casas
mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.
Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a
ópera célebre do mesmo nome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a
ladyMacbeth da topografia. Deu-se lá um crime horrível. Às dez horas, a rua
cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!
Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham
maiores delírios, mas são como os homens normais — guardam dentro
do cérebro todos os pensamentos extravagantes. Quem se atreveria a
resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, o mais
honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas,
com a alma de Tartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior
da África Central, que dos sertões adustos levavam às cidades inglesas do
litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos, têm uma
cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:
O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê
Sentença que em
dizer apenas isto: rua foi feita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem
veneno. Foge da rua!
eubá2, o esperanto das hordas selvagens, quer2
14
Dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria.Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da
diversidade dos tipos urbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E.
Demolins,
ensino da Geografia. "A causa primeira e decisiva da diversidade das
raças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a
estrada que criou a raça e o tipo social. Os grandes caminhos do globo
foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos que transformaram
os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras
siberianas, das savanas da América ou das florestas africanas
insensivelmente e fatalmente criaram o tipo tártaro-mongol, o lapãoesquimó,
o pele-vermelha, o índio, o negro".
A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho
começa a rua, e, por isso, ela está para a grande cidade como a estrada
está para o mundo. Em embrião, é o princípio, a causa dos pequenos
agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as
aldeias terem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois,
ou pela devoção da maioria dos habitantes ou por uma impressão de
local, acrescentam ao substantivo rua o complemento que das outras as
deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700
habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma
outra no Douro que é a Rua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e
uma Rua de Baixo.
Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o
moral dos seus habitantes, a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes,
hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todos deveis ter ouvido ou
dito aquela frase:
— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!
Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas
que cheiram a Botafogo, a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas
Comment la route crée le type social. É uma revolução no15
em idênticas condições, como há homens também. A rua fatalmente cria
o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nós
conhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana,
roupas amplas à inglesa, lencinho minúsculo no punho largo, bengala de
volta, pretensões às línguas estrangeiras, calças dobradas como Eduardo
VII e toda a
posições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de
bico fino, os fatos em geral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco,
o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Se formos ao Largo do
Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola do
snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticaspaletot,
navegação aérea — calças à balão.
Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada,
às vezes até parentes, não há escolas, não há contactos passageiros,
não há academias que lhes tranformem o gosto por certa cor de gravatas,
a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem um
casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente nastock
vai às "primeiras" do Lírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de
Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai ao Lírico. Os moradores
da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores
da Saúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das
Laranjeiras valsam ao som das valsas de Strauss e de Berger, que
lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos
dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio
Cavalcante. As conversas variam, o amor varia, os ideais são
inteiramente outros, e até o namoro, essa encantadora primeira fase do
eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde em
desejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do
especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogokursaals3. As meninas3
16
Cassino.parque ou no grande portão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária;
em Haddock Lobo, Julieta garruleia em bandos pela calçada; e nas casas
humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o dia pensando
nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso...
Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão
que tenha passado metade da existência na Rua do Pau Ferro não se
habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Os intelectuais sentem esse
tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Eu
conheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua
disponibilidade, que a necessidade forçara a aceitar de certo proprietário
o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. O pobre homem, com as suas
poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo da rua.
Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca
ninguém se lembrava de o tratar senão com desconfiança assustada. O
barão sentia-se desesperado e resumira a vida num gozo único: sempre
que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia por ali
altivo, airoso, com a velha redingote
cintilante... Estava no seu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me
conhecem!
As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas
apresentam ao novo transeunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira
vez uma rua de arrabalde sem que o vosso passo fosse hesitante como
que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessas coisas
sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os
humildes limitam todo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos
tipos, os tipos populares, só o são realmente em determinados
quarteirões.
4 abotoada, a "caramela" de cristal4
17
Sobrecasaca.As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os
seus habitantes, que há até ruas em conflito com outras. Os malandros e
os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos. Em 1805,
há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar por
Santa Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo
do Machadinho e a Rua Pedro Américo eram inimigos irreconciliáveis.
Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulam
do Senado, o
Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de
vara:
— Vamos embora!
É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei
Caneca...
Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o
nome da cidade onde tinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de
Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefes da capadoçagem
hoje ao nome de batismo o nome da
da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime,
tornaram-se célebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em
toda a cidade, cheia de Cardosinhos e de Carlitos, porque eram o Carlito
e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observação puramente local?
Não, cem vezes não! Em Paris, a
tomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres
há ruas dos bairros trágicos com esse predomínio, e na própria história de
Bizâncio haveis de encontrar ruas tão guerreiras que os seus habitantes as
juntavam ao nome como um distintivo.
E assim os tipos populares.
povo. Há o povo da Ruapovo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.O povo da Travessa está conosco.5 juntamsua rua. Há o José do Senado, o JucaVille-Lumière, os bandos de assassinos5
18
Malandragem.Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais
vivamente se exteriorizava a influência psicológica da rua: o Pai da
Criança e a Perereca.
O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser
repugnante nascera como uma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o
vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, como já não estava na sua rua,
não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, e o
nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da
gatunice dos governos. Só fui descobrir a sua celebridade quando o vi em
plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindo insolências, inconcebível
de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidor
seria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio,
a extravagância. Os malandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe
pedras, os negociantes chegavam às portas, todas as janelas iluminavamse
de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas e
assim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas
ruas cujo riso seja o mesmo.
Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem
social, é claro que a preocupação maior, a associada a todas as outras
idéias do ser das cidades, é a rua. Nós pensamos sempre na rua. Desde os
mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais, os mais
confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de
liberdade e de difamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro,
de alegria e de amor, idéias particulares. Instintivamente, quando a
criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para a rua! Ainda não
fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair
apanha palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o
petiz não se lembra mais de bichos nem de pancadas!
19
Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade.
Depois continuar a sair só. E quando já para nós esse prazer se usou, a
rua é a nossa própria existência. Nela se fazem negócios, nela se fala mal
do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem as dores
e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.
Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber...
— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.
— Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o
campo de torneio medieval.
— É mais deslavado que as pedras da rua!
Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.
— É mais velho que uma rua!
Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a
opinião que dela se tem.
— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua
sozinho...
— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda
sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror...
Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu,
na França; os presidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma
surpresa da rua — a bomba, a revolta; os chefes de polícia são os
alucinados permanentes das ruas; todos quantos querem subir, galgar a
inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela
20
aprovação da via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em
que se trata apenas das moléstias produzidas pela rua, desde a neurastenia
até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessão em que se
condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a
vida com mais abundância ou maior celebridade, precisava interessar à
rua. Começou pois fazendo discursos em plena ágora
desde os tempos mais remotos aos
de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres.
Um belo dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras levaas
o vento. Logo, nós assustados, imaginamos o
cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme, com muita
goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o
doce mais gostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso,
não só em letras impressas mas com figuras alegóricas, para poupar-lhe o
trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, para alegrá-la. Como se
não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o
6, discursos que,meetings contemporâneos da estátuahomem-sandwich, ohomem-sandwich,desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos
o jornal — esse formidável folhetim-romance permanente, composto de
verdades, mentiras, lisonjas, insultos e da fantasia dos Gaboriau
somos todos nós...
Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes
de fama, os oradores mais populares, os hércules mais cheios de força, os
produtos mais evidentes dos blocos comerciais, vivem de procurar
agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glória policroma
da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem
variada, encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se
teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de cores variegadas, de
7 que6
Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana.7
21
Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.fanfreluches
luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do
milagre do lucro ou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas,
é o resultado do respeito e do medo que lhes temos...
No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a
todos os sentimentos e serve para todas as comparações. Basta percorrer
a poesia anônima para constatar a flagrante verdade. É quase sempre na
rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados. Lá
está a idéia:
8de papel, da ardência fulgurante das montras de cambiantesAdeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.
Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa
no cartório. Mas, se um apaixonado quer descrever o seu peito, só
encontra uma comparação perfeita.
O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.
Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.
Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.
8
22
Ornamento de pouco valor.E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da
amada e desejando realizar o impossível para lhe ser agradável, só pôde
sussurrar esta vontade meiga:
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.
O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós
a armar o efeito de períodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de
violão a cantar com lágrimas na voz como diante do inexorável destino:
Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava...
Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro
versos! A rua chega a preocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses
cavalheiros andam doidos por se ver cá fora, encontrei planos de ruas
ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me um
longo poema que começava assim:
A rua...
Cumprida, cumprida, atua...
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!
Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de
todos os tempos, cada vez mais afiada, cada vez mais sensível. Na
23
literatura atual a rua é a inspiração dos grandes artistas, desde Victor
Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo
de Banville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor
moderno que não tenha cantado a rua. Os sonhadores levam mesmo a
exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista, há toda uma
literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a
mórbida inspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os
românticos cantavam os pés, os olhos, a boca e outras partes do corpo das
apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, os revérberos de
gás como Rodenbach:
Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.
Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —
que nos deu a sutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:
Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!
As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.
Não têm sequer os plácidos carinhos
24
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.
Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos
proteiformes da rua, a analisar traço por traço o perfil físico e moral de
cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal, como sonharam um
mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas
parte alguma
mendigos e sem dinheiro. Rimbaud, nas
babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu cinzento, todas as
maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no
sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de
sonho, que Gustavo Khan considera as ruas utópicas e que talvez se
tornem realidade um dia, é o estranho e infernal sulco descrito por Wells
na
formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de
meia dúzia, serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo
trabalho através dos casarões.
Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na
palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem
criou o reclamo? A rua! Quem inventou a caricatura! A rua! Onde a
expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dar a
expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:
Novelas dea rua socialista e rara, com edifícios magníficos, semIlluminations, teve a idéia da ruaLocking Bockward, jáHistória dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá de sindicatosA Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.
25
E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que
só a rua nos pode dar a expressão do sofrimento absoluto como da alegria
completa, escreveu a celebrada
de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso grave dos
homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também
riam no canto dos pássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava
d’ouro no imenso riso do sol..
Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso
que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu
perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua é o motivo
emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um
valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda
uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e
detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um
doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos
acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua
da Paz, atravessando as betesgas
automóvel dos bairros civilizados, encontram-se aí e aí se arrastam, em
lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado das
cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É
uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e
choupanas de pranto, cuja existência se conhece não por um letreiro à
esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento de
angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de
Atenas, de Roma, de Nínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas.
Termas, canais, fontes, jardins suspensos, lugares onde se fez negócio,
onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu.
Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a
Praça do riso ao nascer da aurora; o riso9 do Saco do Alferes ou descendo de9
Viela, rua estreita.transformação é quase radical. As ruas são perecíveis como os homens. A
outra, porém, essa horrível rua de todos conhecida e odiada, pela qual
diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, a inveja.
Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia.
Enquanto em Atenas artistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em
Roma a multidão aplaudia os gladiadores triunfais e os césares devassos,
na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência. Cartago tinha
uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a
sua alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e
todas as belezas. Qual de vós não quebrou, inesperadamente, o ângulo em
arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes a calúnia, se vos sentistes
ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes na
obscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto
mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre. E não espereis nunca
que o mundo melhore enquanto ela existir. Não é uma rua onde sofrem
apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,
continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em
que se insultam todas as verdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual
Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito
o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente
ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável
rua da Amargura.
João do Rio - A Alma encantadora das ruas.
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